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O Síndrome de Bayés e os Bloqueios Interatriais


O mecanismo pelo qual o estímulo se propaga desde o nó sinusal através do atrio ainda é uma questão de controversia. Em geral, se aceita que são transmitidos através do átrio direito até o nó AV por umas vias de condução preferenciais.

São aceites três vias preferenciais internodais, os Feixes Internodais Anterior, Médio e Posterior. Além disso, o estímulo é transmitido ao átrio esquerdo por o Feixe de Bachmann, um feixe que surge do Feiche Internodal Anterior, passando entre a veia cava superior e a aorta ascendente, sendo a principal via de ativação do átrio esquerdo (não a única).

Em 1979 Bayés de Luna descreveu os bloqueios da condução atrial e os como inter e intratrial. Os bloqueos interatriais se referem às alterações da condução a las entre os dois átrios, enquanto os bloqueios intra-atriais ocorrem no mesmo átrio 1.

Os bloqueios interatriais são os bloqueios mais frequentes a nível atrial e significam que existe uma alteração da condução entre o átrio esquerdo e o átrio direito 2.

A alteração da condução pode estar localizada em qualquer parte do átrio, mas no caso dos bloqueios interatriais envolve especialmente a parte superior da região interatrial próxima ao Feixe de Bachmann 2.

Classificação dos Bloqueios Interatriais

Bayés et al definiram o bloqueio interatriais como um atraso na condução entre os átrios na região do feixe de Bachmann com uma duração da onda P ≥120 ms.

Os bloqueios interatriais podem ser classificados em parciais ou em avançados. Também podem ser classificados como de primeiro, de segundo ou de terceiro grau 1 2.

Os de primeiro grau se correspondem com os bloqueios interatriais parciais e os de terceiro grau se correspondem com os avançados. Os bloqueios de segundo grau não estão incluídos na classificação prévia 1 2.


Critérios diagnósticos por ECG dos Bloqueios Interatriais

Bloqueio Interatrial Parcial (Primeiro grau)

No bloqueio interatrial parcial o estímulo elétrico é conduzido desde o átrio direito ao átrio esquerdo através da via de propagação normal, mas com un atraso na região do feixe de Bachmann 1.

  • A duração da onda P é ≥ 120 ms e frequentemente é bimodal (“com entalhes”) nas derivações D1, D2, D3 e aVF, e por vezes nas derivações V4-V6.
  • O eixo elétrico da onda P é normal.
Eletrocardiograma do Bloqueio Interatrial Parcial

Bloqueio Interatrial Parcial:
Onda P larga com entalhes.

Na presença de un bloqueio interatrial parcial a dilatação do átrio esquerdo é relativamente frequente. De fato, se considera que a onda P bimodal da dilatação atrial esquerda se explica melhor pelo bloqueio interatrial subyacente que pela distância que o impulso tem que atravessar 1.

Bloqueio Interatrial Avançado (Terceiro grau)

O Bloqueio interatrial avançado é um padrão eletrocardiográficos pouco frequente (aproximadamente um 1% dos pacientes com doença valvular) mas muito fácil de reconhecer 3.

  • Duração da onda P ≥ 120 ms.
  • A morfologia da onda P nas derivações inferiores (D2, D3, aVF) é bifásica ou “positiva-negativa”.
Eletrocardiograma do Bloqueio Interatrial Avançado

Bloqueio Interatrial Avançado:
Onda P larga e bifásica nas derivações inferiores.

Em ocasiões, o componente inicial positivo da onda P nas derivações inferiores é es muito pequeno simulando uma onda P completamente negativa, sugerindo um ritmo juncional. Contudo, a onda P é sinusal porque a polaridade positiva em outras derivações, sobretudo em V5-V6, confirma sua origem sinusal.

Bloqueio Interatrial de Segundo Grau

Como no bloqueios AV ou nos bloqueios sinoatriais, os bloqueios interatriais podem aparecer transitoriamente de um batimento a outro.

A morfologia da onda P mostra alterações transitórias no mesmo traçado de ECG, passando de morfologia normal ao padrão de bloqueio interatrial ou de bloqueio interatrial parcial a bloqueio interatrial avançado ou vice-versa 1 3.


Síndrome de Bayés: Bloqueio Interatrial como preditor de Arritmias Supraventriculares

A presença de um bloqueio interatrial de terceiro grau se associa frequentemente a arritmias supraventriculares como as extrassístoles atriais, o Flutter Atrial, mas pero sobretudo, à Fibrilação Atrial 3 4.

Esta associação entre o bloqueio como e as arritmias supraventriculares constitui para alguns autores um claro síndrome arritmológico 1 3.

Em 2014, Conde e Baranchuk 5 propuseram chamá-lo “Síndrome de Bayés” em reconhecimento da primeira pessoa que descreveu todos os aspectos associados a esta afecção.


Bloqueio Interatrial e Sobrecarga Atrial Esquerda

O padrão de bloqueio interatrial não é descrito na maioria dos livros de ECG, onde o prolongamento da duração da onda P (onda P larga) é frequentemente interpretado como sobrecarga atrial esquerda 3 4, mas estes dois padrões eletrocardiográficos são duas entidades separadas 3.

O diagnóstico dos bloqueios interatriais se associa frequentemente a sobrecarga atrial esquerda, embora existam casos, especialmente de bloqueios parciais, que não estão relacionados com a frequentemente sobrecarga atrial esquerda 3.

Além disso, o bloqueio interatrial avançado está habitualmente presente na sobrecarga atrial esquerda, sendo um marcador muito específico (90%) mas pouco sensível para esta patologia 3.

A morfologia da onda P na derivação V1 permite supor se existe uma sobrecarga atrial esquerda associada. Uma onda P bifásica com um componente final negativo maior de 40 ms na derivação V1 indica sobrecarga atrial esquerda 1 3.

Referências

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